Matéria de Capa - 01/04/2019 | Por: Pedro Damian

Perspectivas 2019

O caminho do crescimento está definido


Em 2019 não haverá eleições, tampouco Copa do Mundo. Teremos menos feriados em dias úteis que em 2018. Esse é o primeiro indicador de que neste ano a economia pode parar de patinar e acelerar um pouco no caminho do crescimento econômico. O novo governo dá sinais de que seguirá o bom senso e, mesmo antes de começar, as reformas essenciais (principalmente da previdência) já eram estudadas nos bastidores. Disposição não faltou nos primeiros dias do novo mandato presidencial, porém, como sempre, a luta pela retomada do crescimento econômico passará pelo campo político, e as pedras no caminho serão muitas – no Congresso Nacional o governo não tem uma maioria confortável, e a oposição já demonstrou toda disposição para atrapalhar a governabilidade no que for possível.

O Brasil começa 2019 com a certeza de que o pior da crise já passou – o PIB de 2018, cuja expectativa era que ficasse na casa dos 2 pontos percentuais, será certamente maior que o de 2017, quando cresceu 1% (número que, apesar de baixo, é expressivo, comparado com os PIBs de 2016 e 2015, ambos registrando quedas de 3,5%). Para este ano, as expectativas são boas, se tudo der certo. No começo de fevereiro, o Banco Mundial divulgou sua previsão para o crescimento do PIB brasileiro para este ano. Segundo informações do relatório “Global Economic Prospects” de janeiro, a economia do país irá crescer 2,2% em 2019, principalmente por conta das implantações de reformas estruturais anunciadas pelo novo governo e dos investimentos, que devem superar as despesas públicas.

Outros indicadores dão motivos para otimismo – mesmo que moderado. O Relatório de Mercado Focus divulgado no começo de janeiro pelo Banco Central (BC) mostrou que a tendência para o IPCA em 2019 é de 4,01%. Em dezembro, era de 4,07%. O relatório Focus trouxe ainda a projeção para o IPCA em 2020, de 4,00%. 

Inflação – A projeção dos economistas para a inflação em 2019 é de 4,25%, com margem de 1,5 ponto (de 2,75% a 5,75%). No caso de 2020, é de 4,00%, com margem de 1,5 ponto (de 2,5% a 5,5%). 

Dólar – O valor médio previsto pelos economistas consultados pelo Relatório Focus para 2019 é de R$ 3,80.

Selic – Em relação à taxa de juros, o Relatório Focus, que consolida projeções sobre a economia brasileira feitas por cem analistas, sinaliza tendência de baixa, de 6,5% – projeções feitas no final de 2018 indicavam até 7,25%. 

Desemprego – Segundo estimativa da CNI – Confederação Nacional da Indústria, o desemprego vai cair. A reativação da atividade econômica movimentou o mercado de trabalho, que havia fechado 3,5 milhões de postos de trabalho entre 2015 e 2016. Com a aceleração do crescimento prevista para este ano, as empresas devem contratar mais. A taxa média de desemprego estimada será um ponto percentual menor do que a do ano passado. Mas essas estimativas só se confirmarão se o governo fizer o ajuste duradouro nas contas públicas, avançar nas reformas estruturantes, como a previdenciária e a tributária, e adotar medidas para melhorar o ambiente de negócios, entre as quais estão a desburocratização, alerta a CNI.

Indústria – A entidade também prevê que seu próprio setor, o industrial, acompanhará a retomada da economia. Depois dos altos e baixos registrados em 2018, a indústria brasileira deve consolidar a trajetória de crescimento e fechar 2019 com uma expansão de 3%, impulsionada pelo aumento do consumo e dos investimentos, segundo a CNI.  A indústria extrativa crescerá 2,2%, a de transformação, 4,8%, e a da construção, 0,3%.

"A indústria brasileira deve fechar 2019 com uma expansão de 3%".

Confiança – O otimismo é fruto da expectativa de um ambiente favorável à retomada da economia. Um dos termômetros que medem o clima entre os empresários é o Índice de Confiança da Indústria (ICI) do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Em janeiro de 2019 o índice subiu 2,6 pontos – para 98,2 pontos, o maior nível desde agosto de 2018. “Em janeiro de 2019, a percepção sobre a situação atual dos negócios continuou evoluindo lentamente, sob influência de um ritmo fraco de atividade, como comprova a queda do Nível de Utilização da Capacidade no mês. Mas o setor industrial dá sinais de esperar uma retomada nos próximos meses, após a expressiva desaceleração do segundo semestre do ano passado. As expectativas avançaram bem em janeiro, com melhores previsões para a produção e o emprego no horizonte de três meses e otimismo com relação à evolução do ambiente de negócios no horizonte de seis meses”, afirma Aloisio Campelo Jr., Superintendente de Estatísticas Públicas do FGV IBRE.

A confiança subiu em 12 dos 19 segmentos industriais pesquisados. O indicador que mede o ímpeto de contratações do setor nos três meses seguintes exerceu a maior influência para a alta do Índice de Expectativas no mês, revertendo a tendência negativa dos meses anteriores. O indicador avançou 6,3 pontos, para 97,1 pontos, o maior nível desde junho de 2017 (101,2 pontos). A parcela de empresas que projetam um aumento do total de pessoal ocupado subiu de 12,9% para 19,8% entre dezembro e janeiro, enquanto a das que projetam diminuição recuou de 17,3% para 15,2% do total. O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) recuou 0,5 ponto percentual (p.p.) em janeiro, para 74,3%, o menor nível desde setembro de 2017 (74,0%).

Automóveis – As expectativas da ANFAVEA – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – para 2019 são positivas. A entidade estima aumento de 11,4% no licenciamento de autoveículos este ano: a expectativa é de comercializar 2,86 milhões de unidades. No caso das exportações a projeção é de estabilidade com 590 mil unidades negociadas com outros países. A produção deve chegar em 3,14 milhões de unidades, o que significa um aumento de 9%. “Para 2019, nossa expectativa é de mais um ano de crescimento, exceto nas exportações. A conjuntura macroeconômica indica fatos positivos, como aumento do PIB, inflação diminuindo e queda do dólar. A oferta de crédito em 2018 foi a maior desde 2011. Na soma de todos esses fatores ao otimismo com as reformas econômicas propostas pelo novo governo, acreditamos em uma reação sequencial, que passa pela retomada da confiança tanto do consumidor quanto do investidor”, aponta Antonio Megale, presidente da entidade. Para o setor de máquinas agrícolas e rodoviárias, a previsão é de alta das vendas internas em 10,9%, com 53 mil unidades em 2019. As exportações seguirão o mesmo patamar do ano passado, com 13 mil unidades. Já a fabricação de novos produtos será de 66 mil unidades em2019 – alta de 0,5%.

"ANFAVEA estima aumento de 11,4% no licenciamento de autoveículos este ano. A expectativa é de comercializar 2,86 milhões de unidades"

Setor de Máquinas – A ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – prevê que o crescimento na receita total verificado em 2018 será mantido neste ano, porém, em taxas pouco abaixo das observadas no ano anterior, e puxadas, principalmente, pelo mercado doméstico. Para João Carlos Marchesan, empresário e presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ/SINDIMAQ, “se o governo for pelo caminho da implementação simultânea de uma agenda de competitividade, há fortes razões para esperar não somente uma retomada sustentada do crescimento econômico mas um fortalecimento da indústria com a construção de um parque industrial moderno, sofisticado e diversificado, capaz de avançar em direção ao novo paradigma da manufatura avançada”.

Agronegócio – O setor que mais deu boas notícias para a economia nos últimos anos mantém a trajetória otimista para 2019. Segundo estimativa do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgada em 10 de janeiro, a safra de cereais, leguminosas e oleaginosas deste ano deve ser 3,1% maior do que a produção de 2018, atingindo 233,4 milhões de toneladas.

"A safra de cereais, leguminosas e oleaginosas deve ser 3,1% maior do que 2018."

Segundo o IBGE, para este ano são esperados crescimentos para a soja (0,8%), as duas safras de milho (2,6% para a primeira safra e 11,1% para a segunda safra), para a segunda e a terceira safras do feijão (6,2% e 2,4%, respectivamente) e para o algodão herbáceo (6,6%). No entanto, devem ter queda as produções de arroz (-4,8%), feijão primeira safra (-10,8%), trigo (-3,9%) e sorgo (-0,7%).
A alta de 2019 deve ser puxada principalmente pela Região Sul, cuja produção deve crescer 5%, passando de 74,5 milhões de toneladas para 78,2 milhões. Principal centro produtor de grãos do país, o Centro-Oeste tem um crescimento previsto de 2,8%, passando de 101 milhões de toneladas para 
103,8 milhões.

Setor calçadista – O ano de 2019 começou muito bom para o setor e as boas vendas projetam um ano promissor. Conforme dados elaborados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), janeiro registrou o embarque de 15 milhões de pares por US$ 99,3 milhões, altas de 33,4% em volume e de 23% em receita no comparativo com o primeiro mês do ano passado.

O ano começou muito bom para o setor calçadista, que projeta ser bem promissor.

O presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, ressalta que o número positivo foi puxado pelas exportações do Ceará, que tiveram incremento de quase 60% na relação com o primeiro mês do ano passado. “Existe um movimento de retomada nos embarques, já sentido nos meses finais do ano passado. A participação exitosa na primeira grande plataforma internacional do ano, a Expo Riva Schuh, na Itália, nos dá bons indícios para 2019”, comenta. Segundo ele, o câmbio mais estável e a retomada do mercado nos Estados Unidos também são indicadores importantes.

Pneus – Ainda sem números fechados de 2018, a tendência do mercado de pneus no ano passado foi de estabilidade ou, no máximo, de um crescimento inexpressivo. Mas este ano a situação pode melhorar. Segundo Klaus Curt Müller, presidente executivo da ANIP, “2018 trouxe muita expectativa em relação ao contexto político e econômico, o que acabou impactando nas vendas. Mas, para 2019, esperamos um maior foco do novo governo a favor da competitividade do país e em busca de um melhor ambiente empresarial para a indústria e todas as cadeias produtivas, trazendo assim benefícios para um crescimento sustentável”.