Borracha  30/04/2021 | Por: ABTB

Mercado

Preços da borracha sobem, mas escassez preocupa produtores

Clima prejudica produtividade da atual safra e importação tem gargalo na logística


Em abril, o quilo da borracha (GEB10) atingiu os R$ 10,54, 14,9% a mais que os valores pagos nos meses de fevereiro e de março, que chegaram a R$ 9,18 nos seringais da região de Rio Preto, que representam 56% da produção de borracha brasileira. Os produtores se preparam para o pico da colheita, com a expectativa de preços mais atrativos pagos nos últimos dez anos. Por outro lado, a baixa produtividade das seringueiras deixa o setor em sinal de alerta para a possível escassez de borracha.

"O Brasil não é autossuficiente na produção de borracha e o mercado ainda depende de 70% da importação do produto de países da Ásia, o que traz certa preocupação para as indústrias de pneus, que têm as maiores demandas da borracha", explica o presidente da Associação Paulista dos Produtores e Beneficiadores de Borracha Natural (Apabor) e produtor rural, Fábio Magrini.

O mercado da borracha natural com a pandemia do novo coronavírus, no ano passado, já apresentava a preocupação com as medidas de isolamento social que paralisaram a produção das indústrias pneumáticas no País. De acordo com Magrini, em 2021, ainda em decorrência da pandemia, os estoques reguladores de borracha envolveram os transportes de carga marítima para a importação da borracha, e que estão levando maior tempo para escoar o produto, mais um dos motivos apontados de possível escassez da borracha nas indústrias.

Para o presidente da Apabor, "tudo na agricultura depende do mercado e a gente acompanha de perto toda essa cadeia do campo às indústrias". Ele aponta que um fator positivo para os produtores de látex nesta safra foi que não houve a paralisação das indústrias, como ocorreu o ano passado por causa da pandemia da Covid-19. "Por enquanto, as indústrias de pneus estão comprando a borracha e as usinas de beneficiamento estão mantendo os estoques que chegam do campo", diz Magrini.

No campo, Magrini afirma que o impacto climático afetou a produtividade das seringueiras, o que também sinaliza para a menor produção do látex da safra 2020-2021. "No ano passado tivemos tempo muito seco, com a umidade relativa do ar muito baixa, o que reduziu o fluxo da seiva na planta. Este ano, as chuvas estão muito irregulares, o que também não é bom para realizar a sangria nos painéis das seringueiras", comenta ao lembrar que a safra da seringueira teve início em setembro do ano passado e termina em agosto de 2021.

Neste cenário, o engenheiro agrônomo e diretor agrícola da Planthec, Cássio Scomparin, diz que as usinas de beneficiamento de borracha estão com volume menor do produto em comparação a safras anteriores. "Há uma preocupação quando conversamos com o setor da indústria de pneus, não sabemos o que vai acontecer com relação à pandemia, em decorrência das medidas de fechamento de comércio", comenta Cássio.

A possibilidade de escassez da borracha natural, segundo o diretor executivo da Apabor, Diogo Esperante, está muito relacionada com o fornecimento internacional asiático, "já que a demanda interna do produto é de 40% do que nós produzimos". A situação da logística para a importação do látex vindo de países como Tailândia e Vietnã também encareceu os custos com contêineres. "Os custos com a importação ficaram muito altos diante da valorização do dólar. Além disso, o setor da borracha natural enfrenta o período de entressafra em todo mundo e as indústrias brasileiras passam a disputar mais a borracha produzida no Brasil", diz Esperante.

Falta de borracha é risco para a indústria automotiva

Os suprimentos mundiais de borracha estão se reduzindo drasticamente, problema causado por uma série de fatores, como o crescimento repentino da demanda mundial, o aumento dos estoques na China e uma doença que atacou as árvores que produzem a matéria-prima natural. Com esse cenário se agravando, fabricantes de pneus e outros fornecedores das montadoras nos Estados Unidos já começaram a aumentar o total de encomendas a fim de evitar que fiquem sem borracha para sua produção interna. Nessa indústria há um grande receio de que a escassez da borracha pode se tornar em breve uma nova versão da crise dos semicondutores, que alguns analistas já avaliam que pode se estender por anos. "É como toalhas de papel no início da crise da Covid-19. Se você conseguir colocar as mãos em algum plástico ou borracha, vai pedir mais do que precisa, porque não sabe quando vai conseguir fazer a próxima encomenda", diz Steve Wybo, da consultoria Conway MacKenzie, em relato à Bloomberg. O problema começou em 2020, quando a China manteve seu volume de compras de borracha natural quase igual ao do ano anterior, mesmo tendo interrompido sua produção local por conta do auge da pandemia no país. Ao mesmo tempo, o fornecimento de borracha para os Estados Unidos na época foi reduzido, a ponto de zerar os estoques de muitas fábricas americanas. Com a normalização da produção mundial, a escassez do produto foi aumentando.