Borracha  19/10/2021 | Por: Redação

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Fundação Michelin e WWF-Brasil querem fortalecer cadeia da borracha

Parceria busca arranjos entre organizações extrativistas e empresas para alavancar empregos verdes e manter a floresta em pé na Amazônia


O WWF-Brasil e a Fundação Michelin anunciam uma parceria para desenvolver estratégias de fortalecimento dos elos iniciais da cadeia de borracha de extrativismo na Amazônia dentro de modelos inclusivos que favoreçam soluções positivas para as pessoas e a natureza. A parceria busca conservar a floresta com fortalecimento das populações tradicionais locais, pilares de uma nova economia amazônica baseada no uso e valorização da sociobiodiversidade.

A parceria “Juntos pelo extrativismo da borracha na Amazônia” atuará nos próximos 3 anos com metas de gerar impacto econômico positivo para 3.800 famílias, que serão beneficiadas direta ou indiretamente pelo trabalho de conservação e manejo de 6,8 milhões de hectares em 14 Unidades de Conservação no estado do Amazonas. A parceria prevê engajar extrativistas na produção de 700 toneladas de borracha, produzida e vendida sob padrões sociais e ambientais previamente estabelecidos. A expectativa é que 15 municípios envolvidos nessa atividade tenham fortalecimento da economia local com o impulsionamento do projeto.

Para as duas instituições, a borracha natural produzida na Amazônia tem contribuições econômicas, sociais e culturais no fortalecimento da bioeconomia, uma vez que gera renda para as populações locais e preserva a floresta, oferecendo mais vantagens do que a borracha sintética, à base de combustíveis fósseis. “Fortalecer a cadeia da borracha do extrativismo da Amazônia é apoiar as comunidades seringueiras a conservar a floresta em pé. Para tanto, precisamos superar o falso dilema entre prosperidade econômica e conservação da natureza a partir de uma visão de desenvolvimento sistêmico que integra as necessidades das pessoas a partir da valorização dos ativos da sociobiodiversidade brasileira”, afirma Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

Com a instalação da unidade industrial da Michelin no Polo Industrial em Manaus, houve uma leve ascensão da produção no Amazonas, em 2015. Como a produção local é de apenas 2 mil toneladas por ano, a empresa adquire a matéria-prima de outros estados, como o Acre e Mato Grosso, São Paulo e países como Malásia, Indonésia, Tailândia e países africanos. É nesse contexto que a empresa vem buscando desenvolver alternativas para fortalecer e atrair mais fornecedores.

Segundo Feliciano Almeida, presidente da Michelin América do Sul, “Sabemos que não há como avançarmos sem um compromisso com o planeta, as pessoas e a performance financeira. Por meio de iniciativas como esta, ambientalmente responsáveis, socialmente equilibradas e financeiramente viáveis, a Michelin mostra que segue inovando na busca de uma mobilidade mais sustentável para todas e todos.”

WWF-Brasil e a Fundação Michelin juntos fortalecerão o apoio técnico para 18 associações de produtores extrativistas para que se beneficiem de políticas públicas relacionadas à compra, crédito e promoção da cadeia da borracha. Assim, produzir com padrões ambientais e sociais previamente estabelecidos. Um programa de formação de gestores e lideranças em gestão empresarial e financeira também será cocriado e implementado com as associações parceiras.

Um dos desafios da parceria é reverter a tendência de redução no número de seringueiras e seringueiros por causa do êxodo do público mais jovem. Para engajar jovens e fortalecer as lideranças femininas, WWF-Brasil e Fundação Michelin irão facilitar a escuta e co-construção de soluções baseadas no fortalecimento dos povos da floresta por meio da comunicação.

Na agenda de promoção da transparência e inclusão de serviços ambientais na cadeia verde da borracha, será desenvolvido e implantando um sistema de rastreabilidade da borracha nas associações parcerias. Os fornecedores serão cadastrados, e os usuários serão treinados. Nessa mesma direção, a parceria buscará desenvolver coletivamente uma plataforma de aliança corporativa comprometida com o ecossistema de negócios da cadeia da borracha de extrativismo, com adicionalidade da responsabilidade socioambiental.

O processo de produção de borracha de extrativismo

A produção da borracha envolve o manejo de seringueiras de ocorrência natural nas florestas amazônicas. O processo de manipulação e a produção envolvem atividades com baixo impacto ambiental, como abertura de uma pequena trilha na floresta, e exigem uma floresta conservada e sem degradação para produzir. Uma família normalmente maneja uma área de 400 a 800 hectares de floresta para uma produção não superior a 900 quilos por safra de borracha. Como essas atividades se intercalam ao longo do ano, o extrativista costuma trabalhar comercialmente com 3 até 6 cadeias produtivas concomitantemente com outras atividades de subsistência, sendo cada uma delas de grande importância para a composição de sua renda. A renda da borracha, somado a outros produtos da sociobiodiversidade em uma mesma área (castanha-do-brasil, óleos de copaíba, entre outros) fortalece os meios de vida e a renda para milhares de famílias que vivem em Reservas Extrativistas e demais Unidades de Conservação de uso sustentável, além de territórios indígenas.

Com a revitalização da cadeia da borracha de extrativismo, a economia local é beneficiada, contribuindo na redução da pobreza, no acesso a serviços básicos e melhoria na qualidade de vida. Com a criação de arranjos produtivos e financeiros, as associações de produtores passam a ter participação ativa e outras cadeias produtivas também acabam sendo beneficiadas. Além dos impactos sociais, a extração de látex da sociobiodiversidade incentiva que a floresta amazônica fique em pé, trazendo valor para a seringueira, engajando empresas e consumidores preocupados com grandes desigualdades sociais e a crise climática, o que pode diminuir as pressões de desmatamento que o bioma amazônico vem sofrendo.

Desafios diagnosticados

O aproveitamento do potencial da borracha agroextrativista exige a superação de gargalos mapeados no processo de diagnóstico da cadeia que o WWF-Brasil e a Fundação Michelin realizaram, como a necessidade de técnicas de aprimoramento da qualidade do produto oferecido, modelos de comercialização que considerem o ciclo natural da borracha, grandes distâncias percorridas para poder comercializar o produto, a fragmentação e o tempo no recebimento dos recursos de subvenção, além da necessidade de apoio para a manutenção da regularidade fiscal das organizações de apoio local do produtor. Para superar tais obstáculos e destravar o potencial desta cadeia, a iniciativa priorizará o desenvolvimento de novos arranjos produtivos e financeiros entre organizações extrativistas, empresas e governos precisarão ser estabelecidos.

Há também uma tendência de redução no número de trabalhadores seringueiros por causa do êxodo do público mais jovem. Essa diminuição está associada à falta de estímulo junto aos produtores, incluindo a oscilação do preço do produto, a insegurança de mercado nas safras, desenvolvimento de políticas públicas efetivas de melhorias e o baixo uso de tecnologias. Essas questões se refletem nas famílias extrativistas, pois geram desmotivação para o envolvimento de novos membros com a atividade, sendo esta muitas vezes encarada pelos familiares como uma atividade ultrapassada. O empoderamento e inclusão de jovens e fortalecimento de mulheres seringueiras, já atuantes nos territórios, é uma das prioridades da parceria.