O primeiro Leilão de Gás Natural da União, realizado no dia 22 de outubro pela Pré-Sal Petróleo (PPSA), destinou 480 mil m³/dia aos setores químico, petroquímico e de fertilizantes nitrogenados, o equivalente a cerca de 44% do volume total ofertado, de 1,1 milhão de m³/dia. O resultado representa um avanço na agenda de ampliação do acesso da indústria ao gás natural a preços competitivos, defendida pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
A destinação prioritária de gás para esses segmentos foi resultado de pleito da Abiquim junto ao Ministério de Minas e Energia (MME), considerando a relevância dessas cadeias para a economia nacional e a importância do insumo para sua competitividade. O leilão comercializou a totalidade dos 110 lotes ofertados, contemplando também os setores siderúrgico, ceramista e vidreiro. O fornecimento está previsto para o período de março a dezembro de 2027.
Para André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim, o certame representa o primeiro avanço prático na ampliação da oferta de curto prazo do gás do Pré-Sal e na implementação de um dos eixos prioritários do Programa Gás para Empregar. Criado pelo Governo Federal em março de 2023, o programa busca ampliar a oferta e o aproveitamento do insumo, reduzindo sua reinjeção nos poços e priorizando seu direcionamento a setores estratégicos, como a indústria química e a produção de fertilizantes.
“Esse resultado é fruto de três anos de debates e de construção técnica e econômica coordenados pela Abiquim, com o propósito de transformar o gás natural em um fator de competitividade para a indústria brasileira.”
A Abiquim destaca também o papel do Ministério de Minas e Energia na construção regulatória da iniciativa e a importância do diálogo entre o governo e o setor privado para criar condições que favoreçam a recuperação da capacidade produtiva, estimulem investimentos e gerem empregos no país.
Insumo estratégico para a indústria química
A indústria química é a maior consumidora de gás natural entre os segmentos industriais brasileiros e tem uma particularidade: utiliza o insumo tanto como fonte de energia quanto como matéria-prima para a fabricação de produtos químicos. Em 2025, seu consumo se aproximou de 7,1 milhões de metros cúbicos por dia, equivalente a cerca de um quarto do consumo industrial nacional, segundo dados reunidos pela Abiquim.
No leilão, os setores químico e petroquímico contrataram o total de 350 mil m³/dia, distribuídos entre as empresas Braskem, Rhodia, Evonik, Ingredion e Peróxidos do Brasil. Outros 130 mil m³/dia foram destinados ao segmento de fertilizantes nitrogenados, com aquisições pelas empresas Yara Fertilizantes e Multitécnica Industrial. Somados, os dois grupos receberam cerca de 44% do volume ofertado.
Na prática, o preço médio de comercialização do gás no leilão foi de US$ 5,16 por milhão de BTU, ante um valor de aproximadamente US$ 10 por milhão de BTU praticado atualmente, sem considerar os custos de transporte e distribuição.
A visão das empresas
Para Daniel Hubner, Vice-Presidente Sênior de Soluções Industriais da Yara International, o leilão representa uma conquista importante para a indústria química e de fertilizantes brasileira e demonstra a importância da articulação entre os diferentes agentes do setor na abertura do mercado do gás.
“A Abiquim tem desempenhado um papel fundamental na defesa de condições mais competitivas de acesso ao gás natural, contribuindo para uma agenda estratégica para o fortalecimento da produção nacional e a retomada da competitividade industrial.”
Daniela Manique, CEO da Rhodia-Solvay na América Latina e Presidente do Conselho Diretor da Abiquim, também destaca a relevância da iniciativa para a competitividade do setor. “O leilão é um marco de extrema relevância na nossa trajetória por mais competitividade. Ao reduzirmos a pressão dos custos de produção na base da cadeia, abrimos uma janela real e segura para a retomada dos investimentos no aprimoramento da nossa infraestrutura.”
Ela destaca ainda que o caminho para a excelência energética é contínuo, mas essa conquista, apoiada pela Abiquim, representa um passo firme, devolvendo à indústria química a previsibilidade necessária para planejar seu crescimento frente ao mercado global.
Para Gustavo Checcucci, Diretor de Energia e Descarbonização Industrial da Braskem, o leilão demonstra como o gás do Pré-Sal pode contribuir para a competitividade da indústria brasileira. “A Braskem, uma das compradoras do leilão, vê nessa iniciativa um avanço importante na diversificação do suprimento e na busca por custos mais competitivos. Fundamental reconhecer o apoio da Abiquim na construção dessa agenda e defesa da indústria química.”
Transporte e distribuição são os próximos desafios
O gás comercializado no leilão será entregue na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, da Petrobras, localizada no Complexo de Energias Boaventura, no Rio de Janeiro. A partir desse ponto, os compradores deverão contratar os serviços necessários para transportar o insumo até suas unidades consumidoras.
Para que o avanço obtido no leilão se traduza efetivamente em maior competitividade industrial, a Abiquim ressalta a importância de reduzir também os custos de movimentação do gás. As tarifas de uso dos sistemas de transporte e de distribuição integram o custo final do insumo para o consumidor industrial.
“Este leilão é um passo importante, mas precisamos garantir que o benefício alcançado na comercialização da molécula chegue efetivamente à indústria. Agora, transportadoras e distribuidoras também precisam contribuir para a redução dos custos, com tarifas que permitam aproveitar o gás natural a preços competitivos”, destaca André Passos Cordeiro.